O Mal Passado ou o Mal Atrás de Nós - Martinho Lutero



Como brilha de modo extraordinário a doce misericórdia de Deus Pai, capaz de nos consolar em toda nossa angústia. Porque ninguém sente a presença da mão de Deus sobre si com mais intensidade do que quando recorda os anos da vida passada. Diz o B. Agostinho: “Se fosse dada ao ser humano a escolha entre morrer e viver uma vez mais a vida passada, ele escolheria a morte ao ver os tão grandes perigos e males dos quais escapou com dificuldade e a muito custo”. Considerado condignamente, este anunciado é bem verdadeiro.

Pois aqui a pessoa pode ver o quanto fez e sofreu sem sua participação e cuidado, inclusive sem ou contra a sua vontade, coisas das quais não cogitou antes que acontecessem ou enquanto aconteciam, tanto que, depois de tudo acontecido, se admira e se vê obrigado a dizer: para que me aconteceram estas coisas das quais nunca cogitei ou que imaginei bem diferente?

Assim está certo o provérbio: “O ser humano se propõe, mas Deus é quem dispõe” (Pv 16.9), ou seja, dispõe ao contrário ou outra coisa do que a que o ser humano propõe, fazendo com que, neste um ponto, possamos negar que nossa vida e nossos atos não foram governados por nossa prudência, mas pelo maravilhoso poder, conselho e bondade de Deus. Aqui se reconhece quantas vezes Deus esteve conosco quando nem o vimos nem o sentimos, e como é verdadeiro o que disse Pedro: “Dele é o cuidado por todos nós” (1Pe 5.7).

Por isso, mesmo que não existissem livros nem sermões, nossa própria vida, conduzida através de tantos males e perigos, se considerada, nos encarece fartamente que a divina bondade está bem presente e é agradabilíssima, como a que nos carregou como em seu seio, muito acima de nosso pensamento e percepção, como diz Moisés em Dt 32.10: “O Senhor o guardou como a menina de seus olhos, guiou e carregou-o em seus ombros”.

Daí surgiram estas exortações no Saltério: “Lembrei-me dos dias de outrora, meditei em todas as tuas obras, e meditarei nas obras das tuas mãos”. (Sl 143.5) – “Lembrarei tuas maravilhas desde o início” (Sl 77.12). E: “Lembrei-me de teus juízos e estou consolado” (Sl 119.52).

Todas estas exortações e outras semelhantes intentam que saibamos que, se vemos que Deus esteve conosco naquela ocasião quando nem pensávamos nem víamos que ele estava presente, não devemos duvidar que está presente também agora quando nos parece ausente.

Aquele que nos sustentou em muitas necessidades, mesmo sem nossa participação, não nos abandonará no pouco, mesmo que pareça abandonar-nos, conforme diz Isaías: “Por um momento e por um pouco te abandonei, mas em grandes misericórdias de congreguei” (54. 7).

Se somares a estas ( citações das Escrituras ainda o seguinte ): quem tomou cuidado de nós durante as tantas noites em que dormimos? Quem tomou cuidado de nós enquanto trabalhávamos, brincávamos e fizemos toda aquela infinidade de coisas em que não tivemos nenhum cuidado de nós? Até mesmo o avarento, enquanto se preocupa em ganhar dinheiro, se vê obrigado a concentrar a atenção no buscar e agir.

Assim vemos como todo o cuidado por nós, queiramos ou não, recai somente sobre Deus e que muito raras vezes somos entregues a nossas próprias decisões, o que o Senhor faz mesmo assim, para nos ensinar a reconhecer a sua bondade, para que vejamos uma vez por outra, Deus permite que sejamos atacados por uma doença leve ou outro mal, dissimulando seu cuidado (pois não há momento em que não houvesse cuidado), impedindo, ao mesmo tempo, que tantos males que nos ameaçam de todos os lados nos assaltem ao mesmo tempo, para tentar-nos a nós, seus caríssimos filhinhos, (e verificar ) se estamos dispostos a confiar em seu cuidado, ademais reconhecido em toda a nossa vida, e ver quão inútil e impotente é nosso cuidado próprio. Em que somos ou podemos ser úteis a nós mesmos em toda a vida, nós que sequer somos capazes de curar uma única dor na perna pelo mais curto tempo? ( Lutero está pensando, provavelmente, na ocasião em que seccionou a artéria principal de sua coxa, quase morrendo de hemorragia).

Por que somos tão ansiosos no caso de um único perigo ou mal e não deixamos o cuidado a ele, quando a própria vida testemunha que somos arrancados e preservados por ele de tantos males, sem nossa participação?

Saber isto, digo, é conhecer as obras de Deus, meditar em suas obras e consolar-se nas adversidades na lembranças delas. Os que as ignoram incorrem naquilo que diz o Salmo 27 [28].5: “porque não entenderam as obras de Deus e as obras de suas mãos, tu destróis e não os edificarás”. Pois são ingratos com todo o cuidado que Deus teve com eles ao longo de toda a sua vida os que por um pequeno lapso de tempo não confiam a ele o cuidado por si próprios.

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